Em 1987 fui convidada pelo Dr. Ronaldo Azem a trabalhar enquanto psicanalista no primeiro ambulatório de Acupuntura do Rio de Janeiro totalmente gratuito destinado ao atendimento de pessoas de baixa renda, por ele criado no Hospital Municipal Paulino Werneck.

Ronaldo ali começara enquanto plantonista. Ele costumava pedir aos doutores mais velhos que o deixassem aplicar Acupuntura naqueles pacientes onde os tratamentos à disposição não haviam sido eficazes.
Os bons resultados assim obtidos tiveram como consequência que lhe fosse permitido o uso de uma sala do hospital para tal fim.
Como também fosse um dos fundadores do IARJ (Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro) onde era oferecida formação a médicos ele começou a trazer seus alunos para aulas práticas e estágio no hospital.
Quando cheguei ao Ambulatório, ali havia dois médicos do staff, Ronaldo e Laudino, e cerca de quatro estudantes.
Usavam quatro macas e cadeiras (para auricolopuntura) e praticavam acupuntura, moxabustão, massoterapia e dietética chinesa. Uma auxiliar organizava as fichas e fazia a escala de atendimento.
Mais tarde, a Dra. Gao Yun He, que fora vice-diretora clinica do setor de Medicina Tradicional Chinesa do Hospital Pediátrico de Pequim se juntou a nós e veio a desenvolver uma maravilhosa farmácia fitoterápica.
Os procedimentos por mim adotados ali se enquadram no que chamamos de “Psicanálise Aplicada”.
Como Psicanálise Aplicada, estou me referindo ao uso dos conhecimentos da psicanálise em outros campos de ação, principalmente em instituições-onde tive grande experiência prévia:
- Como Psiquiatra da Medicina Escolar;
- Coordenando grupos de psicólogas, diretoras de escola, assistentes sociais e orientadoras na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro;
- Organizando e coordenando serviço voluntário em psicoterapia de crianças operadas no Instituto Fernandes Filgueiras.
No Paulino Werneck, iniciei por “escutar” a instituição como se esta fosse um paciente.
A primeira coisa que notei foi um grande número de pessoas esperando para serem atendidas. A solução foi encontrada me reportando aos “grupos de espera” de Ballint, cujo objetivo era reduzir a ansiedade dos pacientes face à consulta e procedimentos médicos.
Michael Ballint foi um psicanalista da Tavistock Clinic (Londres) que trouxe uma grande mudança nos departamentos de Assistência Pública de Saúde da Inglaterra durante os anos 50. Ele introduziu os chamados: grupos de sala de espera. Nestes grupos ele trabalhava a ansiedade que aparece quando se espera pela consulta médica.
Neste trabalho fui orientada em supervisão de Julio de Mello Filho.
Comecei conversando informalmente, sentando-me com os pacientes em uma pequena mureta que separava o corredor de uma pequena área descoberta de cerca de 12m² contínua ao ambulatório de acupuntura, onde costumavam ficar.
Poucos dias depois havíamos iniciado um grupo de espera em coterapia, situado naquela pequena área.
Minha tarefa no grupo era trazer a tona a ansiedade submersa no discurso dos pacientes de forma a facilitar a sua visibilidade e elaboração.
Ronaldo, era o “Doutor”, fornecia as informações referentes ao tratamento. Por exemplo: o medo da AIDS aparecia com frequência. Ronaldo era quem mostrava as agulhas e falava sobre o assunto.

Fragmento de sessão:
Paciente a) Meu filho tem medo de injeção.
Paciente b) Uma abelha me picou.
Paciente c) A costureira esqueceu muitos alfinetes na roupa. Eu podia ter me machucado.
Anna: Tanta coisa que espeta! Que mais será que espeta por aqui/serão as agulhas da acupuntura?
Paciente d) É verdade que dói? A gente pode pegar uma infecção por elas?
Anna: Vamos perguntar a quem as usa. Ronaldo, você pode dizer algo sobre isto?
Ronaldo: Não precisam ter medo (mostrando o pacote de agulhas), aqui nós trabalhamos c/ agulhas descartáveis. Mas se alguém preferir pode trazer suas próprias agulhas.
O movimento se introduziu nestes grupos naturalmente:
Certa vez uma paciente procurou lembrar posturas de ioga que fizera anos atrás. Ela tentou fazê-las e o grupo sentiu que a prática de exercício poderia ser útil. Foi quando iniciei com eles o Pa Tuan Ching.
Escolhido devido às mínimas dimensões do lugar e por sua indicação precípua p/ a saúde.

Também chamado os oito tesouros, ou oito peças de brocado, esta sequência de Chi Kun tem indicação precípua para a manutenção da saúde desde a mais antiga China quando o Gal Yu Fei a desenvolveu para evitar a grande mortandade de seus soldados por doenças.

Recentemente, pude observar minha mãe, Atala Saraiva que a praticou até cinco dias antes de morrer (aos 104 anos) confidenciar à minha filha:
"Quando executo estes movimentos é o único momento que tenho certeza de que estou ainda viva".
Trabalhava em regime de grupo aberto, tipo de grupo em que os pacientes podem não ser os mesmos.
Embora grupos abertos, havia certa regularidade na frequência, uma vez que os pacientes costumava retornar ao hospital semanal ou quinzenalmente.
A maioria dos pacientes era do sexo feminino e a patologia predominante às doenças osteo articulares.
Logo notei que era mais fácil aos pacientes deste tipo de grupos adquirirem entendimento sobre suas dificuldades e mesmo ultrapassá-las, o que em outros grupos com que eu tinha contato (sem movimento).
Exemplo: Paciente G, sexo feminino, 50, hipertensa. Apesar de já ter um bom controle de T.A após uma no de tratamento no ambulatório continuava com medo de sair sozinha. O único lugar onde ia era o hospital. Menos de dois meses de iniciar o grupo foi sozinha visitar uma irmã que mora em outro estado.
Outra observação que reporto relevante é o que os pacientes de grupos c/ inclusão do movimento tornavam-se mais receptivos à percepção de sua corporalidade, notamente da sexualidade.
Lembro-me de uma mulher que costumava chamar a “base do cavalo” de posição de fazer xixi.
Isso foi sinalizado e o grupo logo percebeu que esta era a única função que ela permitia a própria vagina. Com esta clarificação ela de imediato passou a ter mais facilidade em colocar-se nessa base; imagino que c/ repercussão no lidar c/ a própria sexualidade.
Cerca de seis meses após meu ingresso no Ambulatório, meu Mestre: Edson Marcio de Lacerda (atualmente representante do Centro de Tai Chi Chuan da Família Yang no Rio de Janeiro) veio em meu auxílio trazendo com ele outros professores do Centro Brasileiro de Tai Chi Chuan.

Marcio Lacerda e Mario Gusmão c/ pacientes durante grupo de espera.
Os exercícios passaram a ser ministrados por eles, enquanto eu me restringia a trabalhar a dinâmica do grupo e chamávamos Ronaldo sempre que necessário.
Logo tínhamos três tipos de grupo:
- Grupos de Sala de Espera
- O Grupão
- Grupos de Triagem

- Coordenado por mim e pelos instrutores de Tai Chi com a presença de Ronaldo, conforme já descrito.
- Um grupo bem maior, situado no estacionamento do hospital, liderado apenas pelos instrutores de Tai Chi que ensinavam um número crescente de pacientes – chegando até 50. Ali ensinava além do Pa Tuan Ching, também a sequência de 108 movimentos. Os funcionários do hospital eram convidados a participar, mas eram raros os que o faziam.
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Os bons resultados obtidos e o interesse da imprensa fizeram a demanda pelo serviço de acupuntura aumentar de tal maneira que o número de pacientes que chegavam era superior a possibilidade de pronto atendimento pelos médicos. Tínhamos um tempo de espera de cerca de dois meses. Muitos pacientes começavam a frequentar este grupo antes de qualquer consulta. Esta prática não tem contraindicação, salvo as próprias limitações do praticante; alguns podendo mesmo começar sentados.
Ronaldo e eu agilizamos o atendimento adotando grupos de triagem em regime de coterapia. Estes grupos eram reunidos de início a cada quinze dias e posteriormente com frequência mensal. Podiam ter de 30 a 35 pacientes, reunidos na sala do centro de estudos do hospital. As sessões duravam 4h ou mais, com um intervalo de 15min.
Nós os planejávamos de maneira a oferecer ao paciente não apenas uma triagem ao tratamento adequado – Tai Chi Chuan (grupão ou grupos de espera), massagem, acupuntura, moxabustão ou fitoterapia – e orientação alimentar. Portanto não era um mero grupo de triagem era um grupo de triagem com tratamento embutido, uma vez que na Medicina Tradicional Chinesa a dietética é parte integrante do tratamento, todos os pacientes saíam da sessão do grupo de triagem c/ a sua prescrição dietética por escrito. Também introduzimos a marcação da primeira consulta por telefone.
No decorrer da sessão, depois de nos apresentarmos, Ronaldo dava aos pacientes uma explicação sucinta sobre a Medicina Tradicional Chinesa, antes de colher a anamnese e examinar pulso e língua. Para anamnese convidávamos os pacientes a se apresentar e dizer o motivo da consulta.
Eu trabalhava as ansiedades subjacentes, sempre procurando “limpar o campo” de forma a facilitar o trabalho de Ronaldo pela diminuição da resistência. Lembro um paciente, sexo masculino, cerca de 40ª, que perguntado “O que costuma comer no café da manhã?”, começou a listar uma quantidade grande de medicamentos e, mesmo depois de Ronaldo repetir duas vezes a pergunta, continuava a dar a mesma resposta. Foi quando interferi mostrando este paciente como a parte do grupo que buscava os remédios como uma espécie de comida. Ele realmente se alimentava de remédios, o que suscitou uma edificante discussão sobre as necessidades simbólicas preenchidas pela ingestão de remédios. Depois disso, o paciente pode responder adequadamente à pergunta de Ronaldo. Os grupos de triagem nos permitiram escalonar o atendimento em conformidade com as necessidades do paciente. Alguns puderam ser vistos, tratados no mesmo dia e sair do hospital sem dores ou mesmo curados.
Quero enfatizar que muitas vezes acontecia de pacientes que já estavam frequentando o “grupão”, chegarem à primeira consulta já assintomáticos, suas queixas eram coisa do passado, mas eles continuavam a frequentar o hospital para praticar o Tai Chi Chuan. Sentiam-se bem e tinham adquirido a consciência de dar continuidade a prática.
No grupão, os instrutores usaram não somente o Pa Tuan Ching mas também a sequência de, cujo encadeamento diferia um pouco do que hoje praticamos embora os movimentos fossem os mesmos.
Havia grande entusiasmo com este trabalho. Como eu mantivesse um grupo só duas vezes por semana um dos pacientes, desenhista profissional, copiou minhas posições para que pudessem consultar os desenhos em minha ausência, praticando ali diariamente.

Acrescentei algumas explicações e com isto fizemos uma apostilha muito útil e esta apostilha foi de grande auxílio na elaboração de um projeto denominado “Movimentos Respiratórios Taoistas”.
Posteriormente, fiz parte de uma comissão para a implantação de Medicinas Alternativas e Tradicionais na Secretaria de Saúde do Município do Rio de Janeiro.

Consistiu em treinar pessoas das comunidades de preferência lideres, para que pudessem formar seus próprios grupos em suas comunidades de origem.
Foram escolhidos três polos de treinamento nas zonas norte, central e sul do Rio de Janeiro – Hospital Paulino Werneck, Prédio da Administração e Hospital Miguel Couto.
O projeto foi divulgado em cartazes e folders em todos os locais de atendimento da Secretaria de Saúde também pela imprensa; além de convites enviados a todos os diretores de departamentos.
Durante os seis primeiros meses os instrutores cuidaram cerca de 40 pessoas em cada pólo.
Nos seis meses seguintes, conforme os alunos iam adquirindo aptidão suficiente para tal começaram seus próprios grupos sob a supervisão dos instrutores, o que significa que os instrutores se deslocavam até as comunidades onde os alunos estivessem ensinando.

Não obstante, as aulas de follow-up continuaram a ser ministradas mensalmente nos polos já citados.
Dr. Carlos Alberto Barreto, diretor do Centro de Saúde do Caju até 1995, relata um fato que por si reflete o sucesso deste empreendimento:
Certa vez o líder do grupo tendo ficado desempregado comunicou que não mais poderia ir, pois não dispunha de dinheiro para a condução até o Centro de Saúde duas vezes por semana. Os pacientes lá, como todos que utilizam o serviço público no Brasil, eram parte de população de baixa renda (cerca de 250 dólares p/ mês). Este exemplo é essencialmente significativo também porque esta população costuma ter pouca iniciativa, mostrando uma tendência a deixar tudo para o médico resolver por eles. Resumidamente, mostram-se dependentes o grupo resolveu coletar o dinheiro entre os seus membros, se cotizando e passaram a pagar as passagens do líder.
Em 1994 me aposentei e os instrutores do Centro Brasileiro, que por cerca de seis anos vinham ensinando sem qualquer remuneração, não apenas na Secretaria de Saúde, mas também em inúmeras praças da cidade pararam pouco depois.
O Tai Chi no Paulino teve uma grande repercussão favorável tanto na mídia, quanto na opinião pública.

Apesar disto, o único pagamento que conseguimos para os instrutores que ali iam, sem nenhuma remuneração, foi o direito de almoçar de graça no restaurante do hospital.


Ronaldo continuou sua brilhante carreira. Ele veio a ser o maior responsável pela introdução da Medicina Alternativa e, principalmente, da Medicina Tradicional Chinesa no programa de Saúde Pública Brasileira (S.U.S). Cabe-lhe também o mérito de ter conseguido dar à acupuntura o foro de especialidade médica – o que facultou o acesso aos planos de saúde particulares.
Não tenho dúvidas que a repercussão do nosso trabalho com Tai Chi Chuan no hospital funcionou como uma pedra jogada no oceano, indo a seu auxílio na obtenção deste objetivo, uma vez que a repercussão na mídia trouxe maior visibilidade junto aqueles que fazem nossas leis.

Durante o workshop, no Rio de Janeiro em 2003, perguntei ao Mestre Yang Zendhuo se nos muitos lugares em que dava aula por este mundo a fora tinha notícia de trabalho semelhante ao que aqui desenvolvemos.

Resposta do Mestre:
Nem na China levou-me a crer que fosse de algum interesse narrar nossa experiência no primeiro Simpósio Internacional de Tai Chi Chuan que teve lugar em Nashville TN USA em julho de 2009.




